Por @sociedadejm

Esse tal de Amâncio de Carvalho, além de doutor, deu nome à rua que minha avó, dona Matilde, mora e onde passei minha infância.

Acho que já comentei por aqui, mas quando era criança ficava sob os cuidados da minha avó, já que meus pais trabalhavam em período integral. Saía de casa bem cedo e me dirigia, com a família, à rua Dr. Amâncio de Carvalho (em São Bernardo do Campo). Meus dois irmãos e eu tomávamos o café da manhã com dona Matilde e depois partíamos para a aula na escolinha, vizinha de muro da casa da vovó. O mais legal é que todas as crianças entravam na escola acompanhados pelos pais, mas nós entrávamos sozinhos, destemidos e aparentando uma maturidade ímpar para nossa idade (maturidade essa que, até hoje, não possuo).

Passado o período de aula, voltava pra casa da minha avó, almoçava e começava, de fato, o meu dia.

Naquela época, por incrível que possa parecer, as crianças brincavam na rua. Sério mesmo, elas saíam de casa pra se divertir. E era essa a hora mais esperada do dia. A molecada saía com um brilho nos olhos preparados para gastar toda a energia acumulada no período da manhã. Ainda mais quando um ou outro tomava uma colher de chá de biotônico Fontoura…

As atividades eram as mais variadas, de bolinha de gude (ou fubeca, pros mais roots) a gol de classe (também conhecido como ‘3 dentro 3 fora’, nome que pode levar a alguma interpretação equivocada do que é a brincadeira). Minhas favoritas sempre foram o jogo de taco e o clássico futebol de rua, apelidado carinhosamente como ‘gol chinelo’.

O jogo de taco, pra quem não conhece, é uma espécie de críquete só que sem a frescura. Uma dupla fica com o taco e outra com a bolinha (que pode ser de tênis ou uma daquelas que você usa pra brincar com o cachorro). A dupla do taco está lá pra rebater a bolinha o mais longe possível, para assim ter tempo de cruzar (sem maldade) os tacos, ou seja, trocarem de posição. A dupla da bolinha busca derrubar a ‘casinha’ (lá na Amâncio fazíamos a casinha com uma garrafa pet com 1/4 de água) para assim passar à posição de ataque, ou seja, ficar com o taco. Há algumas regras interessantes no jogo de taco, como, por exemplo, três pra trás entrega o taco, ou seja, se o cidadão tentar rebater a bolinha e ela espanar pra trás três vezes, o time entrega o taco pro adversário, ou ainda, quando o defensor consegue pegar a bolinha rebatida sem deixá-la cair no chão o jogo acaba com vitória do pegador, etc. Mas, sem sombra de dúvida, a regra mais controversa do taco é a da ‘bolinha perdida’…

A famigerada ‘bolinha perdida’ é caracterizada quando uma rebatida faz com que a bolinha se perca ou caia num lugar de acesso inadequado para a outra equipe. Mas, diferentemente do que diz o Arnaldo, a regra não é tão clara assim. Quando a bolinha caía na casa da dona Celina, conhecida por ser uma mulher, digamos, de difícil convívio, a regra da bolinha perdida poderia ser aplicada. Agora, quando ela ficava embaixo de um carro e o braço do rapaz era curto demais para alcançá-la, gritar bolinha perdida era, não só, uma sacanagem como um insulto aos criadores do taco, que merecem mais respeito dos praticantes atuais.

O outro esporte mais praticado na Dr. Amâncio de Carvalho era o ‘gol chinelo’, que recebe esse nome por ter dois chinelos largados no meio da rua simbolizando as traves. Trios ou quartetos se preparavam para passar longas tardes jogando futebol na rua (uma versão real daquele street soccer que se vê nos games de hoje).

Era sensacional, até avô jogava com a molecada de vez em quando. Lances inimagináveis aconteceram naquela rua. Aquilo sim era o ‘futebol moleque’! A cada semestre organizávamos um campeonato de gol chinelo. A molecada pagava uma taxa simbólica, comprávamos medalhas e tudo mais, elaborávamos tabelas complicadíssimas (mais ou menos como a CBF) e partíamos pro jogo. Os campeonatos geravam muita rivalidade entre as equipes, mas nada se compara aos contras com ‘a rua de baixo’. Em dia de jogo entre Amâncio e ‘a rua de baixo’, todos paravam o que estavam fazendo pra assistir. A rivalidade imperava, jogos repletos de lances polêmicos e discussões davam o tom do clássico, porém, depois de finalizada a partida, tudo voltava à paz.

Passei por muitas coisas importantes naquela rua. Minha primeira banda ensaiava lá, na casa da minha avó, que, invariavelmente, preparava um bolo de fubá quando sabia que a banda viria. Meu primeiro beijo também, uma colega da escolinha disparou um desengonçado selinho na hora da saída. As primeiras brigas, meu medo de altura (caí de uma árvore na frente da casa da dona Celina), tudo aconteceu lá. Às vezes sinto saudade daquela época. Claro, passei por muitas outras experiências importantíssimas depois que me mudei, mas guardo com carinho as lembranças da rua Dr. Amâncio de Carvalho.